Nem toda gravidez é vivida apenas entre planos para o enxoval, escolha de nomes e expectativa pela chegada do bebê. Para algumas mulheres, o pré-natal também traz diagnósticos graves, prognósticos incertos e a possibilidade de uma perda. Nesses casos, a maternidade pode ser atravessada simultaneamente pelo amor, pela esperança, pelo medo e pela angústia.
Essa experiência é conhecida como luto antecipatório e pode começar ainda durante a gestação, quando a mãe passa a conviver com a possibilidade concreta de perder o filho enquanto mantém com ele um vínculo cada vez mais forte.
A psicóloga, autora e fundadora do Instituto Vida Maria, Laís Cabalero, conhece essa realidade de forma pessoal. Na 12ª semana de gestação, ela recebeu um diagnóstico grave sobre a filha, Maria, e precisou lidar com uma gravidez completamente diferente daquela que havia imaginado.
“Receber o diagnóstico na 12ª semana foi como ver o roteiro perfeito ser rasgado”, relata.
Maria nasceu em 22 de março de 2020 e viveu por 20 minutos. Para Laís, porém, aqueles poucos minutos não diminuíram a dimensão da maternidade construída durante a gestação.
“Vinte minutos não determinam o tamanho de uma maternidade”, afirma.
Amor e medo podem existir ao mesmo tempo
Diante de um prognóstico reservado, a gestante pode experimentar sentimentos aparentemente contraditórios. Ela continua amando, criando expectativas e desejando a chegada do bebê, mas também precisa considerar a possibilidade de uma despedida.
Para Laís, reconhecer essa ambivalência é fundamental para o cuidado emocional.
“Uma mulher pode amar profundamente seu bebê e sentir medo. Pode desejar acreditar que tudo ficará bem e, ao mesmo tempo, precisar falar sobre a possibilidade de que não fique”, explica.
Entre os impactos psicológicos mais comuns estão ansiedade, medo constante, culpa, sensação de impotência e a ruptura do futuro imaginado. Não é apenas a possibilidade de perder o bebê que está em jogo, mas também os planos e sonhos que foram construídos em torno daquela criança.
A situação ainda pode afetar relacionamentos. Parceiros e familiares podem reagir de maneiras diferentes à mesma situação, o que pode dificultar a comunicação e aumentar o distanciamento emocional.
Uma gravidez que não cabe no roteiro idealizado
A ideia de que a gestação deve ser necessariamente um período de felicidade também pode aumentar o sofrimento. Enquanto pessoas próximas falam sobre quarto, enxoval e chá de bebê, algumas mães estão tentando responder a perguntas muito mais dolorosas sobre a sobrevivência dos filhos.
Nesse cenário, frases como “não pense negativo”, “vai dar tudo certo” ou “você precisa ter fé”, embora geralmente sejam ditas com boa intenção, podem fazer com que a mulher sinta que não tem espaço para demonstrar medo ou tristeza.
“Saúde mental não é obrigar alguém a sentir apenas emoções positivas. É oferecer segurança para que até as emoções mais difíceis possam ser nomeadas e acolhidas”, destaca Laís.
O acolhimento, portanto, não significa retirar a esperança, mas permitir que esperança e medo coexistam sem que a mulher seja julgada.
Cuidado emocional também faz parte da assistência
Para a psicóloga, o acompanhamento psicológico deveria estar presente desde o momento em que um diagnóstico grave é apresentado à família. A forma como uma notícia difícil é comunicada e o suporte oferecido depois podem fazer diferença na maneira como a mulher atravessa a experiência.
Laís defende maior preparação das equipes que trabalham em maternidades para lidar com diagnósticos delicados, perdas gestacionais e mortes neonatais.
Segundo ela, humanizar a assistência envolve respeitar a existência daquele bebê, acolher a mãe e a família, permitir que sentimentos sejam expressos e, quando possível, preservar memórias da criança.
A experiência com Maria também transformou a trajetória profissional de Laís. A partir da própria história, ela passou a trabalhar no acolhimento de mulheres que enfrentam perdas gestacionais e situações de vulnerabilidade.
“A minha história me deu um propósito para transformar vidas e impactar mulheres e bebês”, afirma.
A vivência deu origem ao livro Além da Dor: transformando a perda em propósito e ao Instituto Vida Maria, que atua em Salvador e Brasília com atendimento a gestantes em situação de risco e vulnerabilidade social, incluindo acompanhamento multiprofissional e suporte ao pré-natal físico e emocional.
Para Laís, falar sobre essas experiências é também uma forma de romper o silêncio que ainda cerca o luto gestacional e neonatal.
Porque, mesmo quando a história não termina como foi planejada, a maternidade vivida, o vínculo construído e o amor por aquele filho não deixam de existir.
Por Ataíde Barbosa/Foto: Maginific


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