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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Por que um candidato pode ter muitos votos e mesmo assim não ser eleito? Entenda o sistema proporcional

A apuração dos votos costuma ser um dos momentos de maior expectativa durante uma eleição. Para quem disputa uma vaga no Legislativo, porém, o número de votos obtido individualmente não é o único fator que determina a vitória.

Nas eleições para deputado federal, deputado estadual e vereador, o Brasil utiliza o chamado sistema proporcional. Nesse modelo, as vagas são distribuídas inicialmente de acordo com o desempenho dos partidos e das federações, e somente depois os candidatos mais votados dentro de cada legenda ocupam as cadeiras conquistadas.

É por isso que pode acontecer de um candidato receber mais votos do que outro e, ainda assim, não conseguir uma vaga.

Eleições majoritárias e proporcionais têm regras diferentes

Antes de entender os cálculos, é importante separar os dois modelos eleitorais.

Nas eleições majoritárias, como as disputas para presidente, governador, prefeito e senador, o resultado está diretamente relacionado à votação individual dos candidatos. Em linhas gerais, vence quem obtém a maior votação, observadas as regras específicas de cada cargo.

Já nas eleições proporcionais, utilizadas para vereador, deputado estadual e deputado federal, a quantidade de votos recebida por cada partido ou federação interfere diretamente no número de cadeiras conquistadas.

Nesse sistema, portanto, o voto dado ao candidato também ajuda a composição da legenda à qual ele pertence.

O que é o quociente eleitoral?

O primeiro cálculo utilizado é o quociente eleitoral (QE).

Ele é obtido pela divisão do número de votos válidos registrados para determinado cargo pelo número de vagas disponíveis.

Tomando como exemplo a eleição para deputado federal na Bahia em 2022, foram registrados 7.958.431 votos válidos. Como o estado tinha direito a 39 cadeiras na Câmara dos Deputados, a divisão chegou a um quociente eleitoral de aproximadamente 204.062 votos.

Esse número funciona como uma referência para calcular quantas vagas cada partido ou federação pode conquistar inicialmente.

Como funciona o quociente partidário?

Depois de definido o quociente eleitoral, entra em cena o quociente partidário (QP).

Nesse caso, divide-se a quantidade de votos válidos obtida pelo partido ou federação pelo quociente eleitoral.

Voltando ao exemplo da Bahia em 2022, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, recebeu 1.761.003 votos válidos na disputa para deputado federal.

Ao dividir essa votação pelo quociente eleitoral de 204.062, o resultado foi aproximadamente 8,6. Como a parte decimal é desconsiderada nesse cálculo inicial, a federação conquistou oito cadeiras por meio do quociente partidário.

Isso significa que não foram simplesmente os oito candidatos mais votados de toda a Bahia que ocuparam essas vagas. Foram considerados os candidatos mais votados dentro da própria federação, respeitadas as regras eleitorais.

E quando ainda existem vagas disponíveis?

O cálculo não termina necessariamente com o quociente partidário.

Depois da distribuição inicial, pode haver cadeiras que ainda não foram preenchidas. Essas vagas são distribuídas pelas regras das sobras eleitorais, que levam em consideração o desempenho das legendas e os requisitos previstos na legislação eleitoral.

Foi dessa maneira que, no exemplo citado, a Federação Brasil da Esperança conquistou mais duas cadeiras, chegando a um total de dez deputados federais eleitos na Bahia em 2022.

Por isso, o processo não pode ser resumido à simples comparação entre a quantidade de votos de cada candidato.

Como alguém pode ter mais votos e ficar de fora?

Essa é uma das situações que mais causam dúvidas entre os eleitores.

Imagine dois candidatos de partidos diferentes. O candidato A recebe 10 mil votos, enquanto o candidato B recebe 8 mil.

Em uma disputa majoritária, o candidato A teria vantagem direta. Na eleição proporcional, entretanto, é necessário verificar quantas cadeiras o partido de cada candidato conquistou.

Se o partido do candidato A não conseguir atingir os critérios necessários para disputar ou conquistar uma cadeira, ele pode ficar de fora mesmo tendo recebido mais votos individualmente.

Enquanto isso, o candidato B pode ser eleito porque sua legenda conquistou uma vaga e ele está entre os candidatos mais votados daquela sigla.

Um exemplo ocorrido na Bahia

Um caso que ajuda a compreender o funcionamento do sistema ocorreu nas eleições municipais de 2024, em Feira de Santana.

Jhonatas Monteiro (PSOL) recebeu 10.890 votos e foi o candidato mais votado da história do município naquele momento. Mesmo assim, não conseguiu renovar o mandato.

A Federação PSOL/REDE obteve 12.014 votos, enquanto o quociente eleitoral do município foi de 15.812 votos. Como a votação da federação não alcançou o patamar necessário para conquistar uma cadeira pelo cálculo correspondente, o candidato não foi eleito.

O episódio demonstra que uma votação individual expressiva não garante, por si só, uma cadeira no Legislativo.

O mesmo pode acontecer com candidatos a deputado

A lógica também aparece nas eleições para deputado.

Em 2022, por exemplo, Charles Fernandes (PSD) recebeu 99.815 votos na Bahia e terminou como o 31º candidato mais votado para deputado federal, mas ficou na suplência.

Marcelo Nilo (Republicanos), por sua vez, recebeu 65.363 votos e também não conseguiu uma das três cadeiras conquistadas pelo partido.

Os números mostram que a votação individual precisa ser analisada em conjunto com o desempenho da legenda e com a quantidade de vagas efetivamente conquistada.

Por que o Brasil utiliza esse sistema?

O sistema proporcional procura fazer com que a composição dos parlamentos reflita, de alguma maneira, a diversidade de forças políticas presentes no eleitorado.

Em vez de concentrar todas as cadeiras apenas nos candidatos individualmente mais votados, o modelo considera também a votação obtida pelas legendas.

Na prática, isso significa que o eleitor escolhe um candidato, mas esse voto também contribui para a votação do partido ou federação.

O que o eleitor deve observar durante a apuração?

Quando os resultados começarem a ser divulgados, não basta olhar apenas para a lista dos candidatos mais votados.

Para compreender quem realmente foi eleito, é necessário acompanhar:

a quantidade de votos válidos;

o quociente eleitoral;

a votação de cada partido ou federação;

o número de cadeiras conquistadas por cada legenda;

a votação dos candidatos dentro de cada partido ou federação;

e a distribuição das eventuais sobras.

Por isso, a pergunta “quem teve mais votos?” nem sempre é suficiente para responder “quem foi eleito?”.

No sistema proporcional, a eleição é resultado de uma combinação entre voto individual, desempenho coletivo das legendas e distribuição das cadeiras. É essa lógica que explica situações que, à primeira vista, podem parecer contraditórias: candidatos com votações expressivas ficando de fora e outros, com menos votos individuais, conquistando uma cadeira.





Por Ataíde Barbosa/Foto: Nelson Júnior/TSE

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